Disponibilizar ferramentas de inteligência artificial sem preparar as equipes pode limitar os ganhos esperados pelas organizações
A inteligência artificial generativa entrou no ambiente corporativo em velocidade acelerada, mas muitas empresas ainda não descobriram como transformar a tecnologia em resultados concretos. O problema, segundo especialistas em gestão, já não está apenas no acesso às ferramentas, mas na capacidade das organizações de preparar seus profissionais para utilizá-las de forma estratégica.
Em um cenário no qual ferramentas como o ChatGPT estão cada vez mais presentes na rotina profissional, capacitar pessoas passa a ser tão importante quanto investir na própria tecnologia. Dados divulgados pelo Cetic.br em junho de 2026 mostram que o uso de inteligência artificial nas empresas brasileiras com 10 ou mais pessoas ocupadas passou de 13%, em 2024, para 17%, em 2025. Entre as grandes empresas, com 250 ou mais funcionários, a adoção avançou de 38% para 50%. O levantamento ouviu mais de 4 mil empresas em todo o país.
Na avaliação de Bruno Castro, consultor em Processos e IA aplicada à Gestão, responsável pela B.Castro Consultoria, o risco está em acreditar que a simples disponibilização da ferramenta será suficiente para gerar produtividade. “A empresa pode ter a melhor ferramenta disponível e continuar trabalhando da mesma maneira. O resultado não está na ferramenta, mas na forma como as pessoas passam a trabalhar depois que aprendem a utilizá-la”, afirma.
Um profissional preparado pode utilizar a IA para eliminar etapas burocráticas, resumir documentos, organizar informações, gerar análises, estruturar apresentações, apoiar pesquisas e acelerar tarefas que antes consumiam horas. O ganho, porém, depende da capacidade de identificar quais atividades realmente podem ser potencializadas pela tecnologia. “O objetivo não deveria ser terceirizar o pensamento para a inteligência artificial, mas ampliar a capacidade humana de analisar, criar e decidir. Quando tiramos o profissional de atividades operacionais que consomem tempo, permitimos que ele utilize sua capacidade em tarefas de maior valor”, explica Bruno.
A necessidade de capacitação já aparece entre as grandes empresas brasileiras. Pesquisa realizada pela IDC entre março e abril de 2026 com executivos de organizações com mais de mil funcionários identificou que 30% apontam a escassez de talentos como uma das principais barreiras para a adoção da inteligência artificial. Como resposta, 86% das empresas pesquisadas afirmam investir na capacitação das equipes de tecnologia e 71% também estão treinando profissionais das áreas de negócios.
Outro levantamento internacional reforça que o desafio vai além do domínio técnico das ferramentas. O Work Trend Index 2026, realizado com 20 mil profissionais de dez países, incluindo o Brasil, identificou que fatores organizacionais, como cultura, apoio da liderança e práticas de gestão, apresentaram peso aproximadamente duas vezes maior nos resultados relatados com IA do que fatores ligados apenas ao comportamento individual.
Para Bruno, os números demonstram que a discussão precisa deixar de ser tratada exclusivamente como um assunto do setor de tecnologia. “Quando uma empresa entrega uma ferramenta de inteligência artificial para uma equipe sem ensinar onde, como e por que utilizá-la, existe uma grande chance de continuar fazendo os mesmos processos, apenas com uma tecnologia nova. A produtividade aparece quando a IA é conectada ao processo de trabalho.”
Outro cuidado envolve a segurança das informações. O uso corporativo da inteligência artificial exige regras claras sobre dados, documentos e informações estratégicas. Também é necessário ensinar os profissionais a conferir conteúdos produzidos pela IA, já que respostas aparentemente corretas podem conter erros. “Treinar uma equipe para usar inteligência artificial também significa ensinar responsabilidade. É preciso saber perguntar, interpretar, conferir e decidir”, ressalta.
Em setembro, quando o calendário profissional destaca o Dia do Profissional de Administração, a discussão sobre inteligência artificial ganha um significado especial. Cabe aos gestores conduzir essa transformação dentro das organizações, conectando tecnologia aos processos e às pessoas. Para Bruno, à medida que o acesso às ferramentas se torna cada vez mais democrático, o verdadeiro diferencial competitivo tende a mudar. “A IA será cada vez mais acessível. O diferencial não será simplesmente ter acesso à tecnologia, mas ter pessoas preparadas para fazer perguntas melhores, encontrar soluções melhores e tomar decisões melhores com o apoio dela.”
Serviço: B.Castro Consultoria
Bruno Castro
Consultor em Processos, Tecnologia e Mentalidade
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